Serviço de Mensagens Curtas (SMS)

O Serviço de Mensagens Curtas (SMS - Short Message Service) foi algo que apareceu há relativamente pouco tempo e que veio proporcionar uma facilidade imensa na comunicação diária interpessoal. Hoje em dia, todos os telefones móveis (e alguns fixos até) possuem este serviço, sendo algo que a vasta maioria de nós utiliza diariamente. Estatísticas da União Internacional das Telecomunicações revelam que durante o ano de 2009 foram enviadas, em média, cerca de 200 Mil mensagens por segundo! Ou seja, cerca de 6,1 Triliões de mensagens durante todo o ano de 2009, em todo o mundo. Isto representa um aumento de cerca de 340% da quantidade de SMS enviadas em 2007 (1,8 Triliões) para a quantidade observada em 2009.
Face a um aumento tão significativo na quantidade de SMS enviadas anualmente à escala mundial, pode-se concluir que este é um serviço de mensagens com inúmeras vantagens. No entanto, há algumas consequências nesta facilidade de envio de mensagens curtas, e sobre as quais é dada pouca ênfase actualmente; ainda que algumas estejam mesmo, a pouco e pouco, a mudar toda a estrutura de comportamento social considerado primordial e essencial.
Como os telemóveis ainda são uma coisa recente, há os mais diversos factores que não nos são conhecidos. Por exemplo, a nossa geração é a primeira geração a ter acesso a telemóveis desde a adolescência (nalguns casos, mais cedo até), pelo que não se sabem ainda as consequências da utilização de telemóveis no período de toda uma vida. Estima-se que os resultados das radiações envolvidas não serão muito positivos, mas não há observações concretas de uma geração que tenha utilizado telemóveis durante toda a sua vida, pelo que somos uma espécie de "ratos de laboratório" no que diz respeito a efeitos secundários a longo prazo, resultantes da prolongada exposição à radiação proveniente dos telemóveis, e outros tipos de dispositivos semelhantes mais recentes. Isto, no que diz respeito a efeitos físicos resultantes do uso dos telemóveis, mas não é sobre isto que quero incidir aqui. Eu quero falar sobre os efeitos no nosso comportamento social que podem provir do uso excessivo que se tem hoje em dia das SMS.
Se observarmos com alguma atenção a utilização que é dada actualmente aos telemóveis, mais especificamente às SMS, podemos rapidamente identificar alguns grandes contras do seu uso sistémico.
O primeiro contra que me lembro de analisar é a despersonalização que as SMS trazem, quando usadas em excesso, e ainda possível alienação. As pessoas tendem, por vezes inconscientemente, a abdicar de encontros físicos, por ser possível estabelecerem uma conversação corrida e permanente por texto. Por vezes, chegam a estar presentes em sítios, mas como se estivessem em piloto-automático, pois apesar de se encontrarem fisicamente presentes, estão ausentes, distraídos, enviando SMS. Hoje em dia uma pessoa pode-se alienar ao ponto de ter uma localização física fixa num determinado local, mas estar a falar com uma pessoa num qualquer outro local do mundo, sem que isso seja visível para as pessoas que rodeiam o indivíduo em questão. Assim, apesar do grupo no qual a pessoa em análise está inserida considerar que a pessoa presente tem a sua atenção focada no tempo e local onde se encontra (o que seria o normal...), hoje em dia isto já não é necessariamente tão linear assim. Isto tem tido imenso impacto, por exemplo, nas relações familiares. É muito comum nos tempos que correm, essencialmente por falta de bons princípios de educação incutidos pelos pais, ver-se uma determinada família a conviver num local qualquer cuja especificação não é relevante para a percepção do exemplo, e os elementos mais jovens da família estarem completamente (perdoem-me a redundância do termo) colados ao telemóvel, completamente alienados do convívio familiar, e indevidamente focados em conversações, por vezes completamente banais, com qualquer colega ou amigo que se encontra noutro qualquer local. Até é muito provável que este amigo em questão também esteja fisicamente com a família no mesmo momento, e que também ele se esteja a alienar da mesma, para estabelecer esta comunicação via mensagens instantâneas. Isto é principalmente comum entre pares de jovens namorados. Também isto interfere actualmente a um nível demasiado elevado no aproveitamento académico dos indivíduos jovens. Vêm tão dependentes dos telemóveis e das suas capacidades de SMS que nem em estabelecimentos de ensino os largam. Ora, para além de isto estar a baixar todos os níveis de atenção e aproveitamento da larga maioria dos jovens, está-lhes ainda a dar uma errada sensação de estar. Em futuras relações de negócios, inclusive reuniões, é completamente inaceitável que permaneçam neste constante disparate, e dada a sua dependência geral dos telemóveis, ser-lhes-á complicadíssimo mudarem o respectivo hábito.
Os namoros da juventude do presente, salvo raríssimas excepções, também perderam todo o romantismo anteriormente associado ao conceito namorar. Isto deve-se a imensos factores que não considero de reflexão aqui, mas nos quais estão inseridas as comunicações por SMS. Chega-se ao cúmulo de haverem testemunhos de casais jovens que dizem, com um sorriso na cara, que o seu namoro começou por um pedido de namoro por SMS, devida aceitação por SMS também, e, da vez seguinte que se encontraram presencialmente, já se consideravam namorados, sem demais a acrescentar. Ora, sejamos realistas, isto é quase uma doença... Tal alienação da realidade e do prazer da comunicação pessoal é completamente surreal. Ou seria, à luz da sabedoria dos tempos remotos próximos. Agora começa a querer parecer-se normal. Mesmo a convivência de casais de namorados jovens começa cada vez mais a basear-se numa constante série de conversas completamente banais estabelecidas através de SMS. Já não se encontram para actividades culturais, uma ida ocasional ao jardim zoológico, uma ida a um museu, ou uma exposição de pintura, por exemplo. É tal a dimensão de contacto possibilitado pelo serviço de mensagens curtas/instantâneas que se saturam também mais rapidamente, o que contribui para o curtíssimo período de tempo que as relações "modernas" têm tendência a perdurar. Não há inovação na relação, não há iniciativa de surpresa, não há novidade. Há uma enorme tendência para as SMS fazerem estes casais caírem numa rotina demasiado igual, que os leva a facilmente se cansarem, e quererem seguir para outra. Claro que estou a analisar a geração que se encontra neste momento na adolescência, e de um modo geral. Existem sempre várias excepções à regra. Ainda os casais que perduram esta fase de namoro, quando vão viver juntos, muitas vezes, dão conta que afinal não conheciam tão bem assim o parceiro, porque em vez de conviverem interessante e pessoalmente, talvez a título geral, pelo menos 50% do seu "tempo de convívio" foi estabelecido via contacto SMS.
Bom, todas estas desvantagens sociais e de convivência... Mas então, e quem não se interessa por estes factores, porque há-de pensar sequer em ser comedido no uso de SMS? Bom, culturalmente, as SMS são uma imensa desgraça para a juventude. Não necessariamente as SMS, claro, mas o uso excessivo que lhes foi aplicado. Toda a gente já teve a oportunidade de ler aberrações como "ieu axu ke ext blog e cãopléta-mente fishe!"... O tão recorrente uso das SMS levou a população jovem em fase de aprendizagem a implementar uma série de abreviaturas e vícios de escrita nas suas SMS. Ora, sendo isto feito nestas frágeis idades de aprendizagem, uma assustadora quantidade destes jovens tem vindo a revelar dificuldades de discernimento entre esta linguagem "bera" e a linguagem "erudita"/ a correcção linguística. Isto leva a que a quantidade de jovens que produzem textos com erros aberracionais nas escolas portuguesas, e até no âmbito externo das escolas, seja de facto assustadora!
Como último factor negativo das SMS, e porque não quero estender o texto mais ainda, gostava de mencionar a excessiva facilidade em desmarcar compromissos. Antigamente, uma pessoa que não tivesse vontade de ir a um determinado compromisso teria, pelo menos, de passar pelo embaraço de fazer um telefonema por voz ou algo assim, e enfrentar a outra parte do compromisso, explicando porque não poderia estar presente afinal no compromisso previamente acordado. Com as SMS, uma pessoa nem por esta situação tem de passar. Apenas envia uma mensagem a dizer algo como "lamento, mas não poderei estar presente hoje na reunião", e nem sequer passa qualquer constrangimento. Há uma imensa diminuição do sentido de responsabilidade pelo tal uso excessivo tão mencionado aqui.
Então, não devemos utilizar SMS? Claro que devemos. São extremamente úteis e eficazes, apenas acho que é um tema que tem vindo a revelar sérias mudanças na forma como principalmente os jovens encaram a vida e as suas responsabilidades, bem como possibilidades de socialização e interesse familiar. O uso das SMS deve ser comedido, e acho que deveria haver mais sensibilização quanto aos factores negativos que o uso demasiado sistémico das mesmas pode trazer.
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