O 6º e mais Sentidos

É de conhecimento generalizado que o grupo dos Sentidos do corpo humano é constituído por 5 elementos: tacto, olfacto, visão, audição e paladar.
Chegamos até a ver muita gente, inclusive em publicações de revistas de elevado estatuto cultural, livros, e todas as outras formas de comunicação globalizadas, a mencionar um tal 6º Sentido como sendo um estado psíquico que alguns Humanos conseguiram supostamente atingir. Alguns chegam mesmo (curiosamente para uns, ridiculamente para outros) a ensinar a desenvolver esse 6º Sentido. É como uma 3ª visão e/ou afins capacidades psíquicas. Há muitas versões para este acrescentado sentido, dependendo essencialmente da cultura social e religiosa de onde provêm. Mas não é sobre isto que me quero aprofundar neste momento...


A semana passada vinha no autocarro, e dei por mim a aguentar-me em pé, sem grandes hesitações, e sem estar agarrado a qualquer parte do veículo em causa. Claro que não sou eu que tenho um qualquer género de 6º Sentido dentro de mim. Até porque já vi muito mais gente a conseguir o mesmo feito, inclusive em escalas muito mais impressionantes, como é o caso dos surfistas, por exemplo. Então comecei a pensar se o equilíbrio não seria um sentido que nós também possuímos. Porque não? Quer dizer, um Sentido é algo que se pode definir como a capacidade de "recolha de informação externa ao nosso corpo" através de um sensor específico para o sentido em questão, seguido de uma funcional análise da informação. Ou seja, no caso da visão, a título de exemplo, se só tivéssemos o sensor da visão (os olhos) mas, no entanto, não tivéssemos uma parte do nosso cérebro dedicada a processar toda a informação recolhida, não nos serviria de nada.
Quanto ao equilíbrio acontece precisamente o mesmo! Há um conjunto de sensores que os nossos corpos têm cuja função é pressentir a nossa oscilação da posição assumida normal vertical (uns líquidos localizados no ouvido interno); a informação recolhida é então analisada e os músculos ao longo de todo o corpo reagem instintivamente, de acordo com informações enviadas pelo nosso cérebro, de forma a nos aguentarmos de pé. Aliás, como em todos os sentidos, também este varia, na capacidade, de pessoa para pessoa. Há pessoas com menor paladar, menor olfacto, menor visão,... Paladar, ou visão ou olfacto mais desenvolvidos. Também há pessoas com maior e menor capacidade de equilíbrio. Ora, em discussão com um amigo, foi-me perguntado porque razão eu não assumia então, visto os cristais líquidos que controlam o nosso equilíbrio estarem localizados dentro do ouvido, que isto era uma variante da audição? E ainda, se não achava que o equilíbrio fosse apenas uma conjunção da visão e da audição. Bom, acontece que nem os surdos nem os cegos andam em constantes quedas. Eles, apesar de não possuírem visão nem audição, conseguem-se equilibrar, pelo que deve haver pelo menos alguma independência.

"Descobri o verdadeiro 6º Sentido!" - pensei eu. O que significava que o antes 6º Sentido, o tal das propriedades psíquicas, passaria agora a ser o 7º Sentido! Ou seria adiantado ainda mais, por sentidos mais realistas que se pudessem anteceder a este?

Comecei então a pensar quantos mais haveriam, e fiz alguma pesquisa, deparando-me com estudos muito interessantes. Não temos uma mão cheia de sentidos, mas sim duas! Pelo menos!... O que se passa então? Os 5 sentidos que nos são ensinados desde crianças estão errados? Não, de maneira alguma. Estão baseados numa enumeração pura e simplesmente incompleta. Ou seja, da maneira que eu vejo a questão, os 5 sentidos mais visíveis e perceptíveis numa primeira análise são estes. Mas temos muitos mais. Temos sentidos como o equilíbrio, que já mencionei anteriormente; a propriocepção, que é a percepção que temos de nós próprios num determinado conjunto espaço-tempo, e que os cegos, por exemplo, têm muito mais desenvolvida que a generalidade das outras pessoas; a própria fome, se virmos bem, é um sentido que temos, assim como a sede; até mesmo o facto de sabermos quando temos de urinar é, na minha perspectiva, e de acordo com a definição do que é um sentido, um sentido! Porque um sentido entende que pelo menos haja um sensor especificamente especializado para o efeito. Ora, temos um sensor especificamente atribuído para sabermos quando necessitamos de esvaziar a bexiga, localizado na mesma.
Há ainda um conjunto de qualidades assumidas como sentidos em alguns estudos, mas que fazem menos sentido, como, a título de melhor exemplo deste enquadramento, a "termocepção", ou seja, capacidade de sentir frio ou quente. Aqui alguns investigadores dizem que isto é considerado um sentido porque não implica necessariamente contacto físico para sensoriar estas temperaturas, mas a verdade é que o ar tem uma massa. Por muito pouco densa que seja, ela é considerada um meio físico, pelo que o contacto com o ar se dá através do tacto.

Também podemos concluir, numa análise mais profunda, que talvez mesmo a fome e a sede, por exemplo, se baseiam no tacto, na medida em que precisam do mesmo para sentir quando o nosso corpo necessita de consumos adicionais. Mas aí também teríamos automaticamente que desacreditar o paladar, uma vez que também depende do tacto, bem como a audição que depende do contacto físico com ondas sonoras, e reduziríamos os sentidos a apenas um ou dois..

Onde eu quero chegar então não é a uma lista que eu considere correcta com a enumeração de todos os sentidos que possuímos, e tudo o que poderá não ser um sentido independente como críamos ser. Quero apenas, através desta partilha de opiniões, fazer ver que a informação que nos é transmitida acerca dos 5 Sentidos poderá correr o risco de ser um elemento obsoleto. Vem já desde o Séc. VI antes de Cristo, a assumpção dos 5 sentidos do Homem. Estamos a falar de "teorias" com mais de 27 Séculos. Não estou a crer dizer que está de facto errada esta teoria dos 5 sentidos, quer dizer, o monge Budista que idealizou esta teoria foi um visionário que, há mais de 27 Séculos atrás conseguiu dar início a um estudo bastante interessante. E merece todo o crédito e reconhecimento, a sua teoria, que tem sido transmitida de gerações em gerações. A única coisa que acho essencial é que, face a novas tecnologias e novos adventos e conhecimentos, a nossa sociedade vá questionando estes estudos mais remotos no tempo, de modo a que não se caia num ciclo de inércia cognitiva. Não devemos assumir tudo como verdadeiro e absoluto. Devemos questionar, pensar se fará sentido acrescentar novos elementos a uma determinada informação, antes de a transmitirmos às futuras gerações.

Concluindo, não quero, de forma alguma, dizer que as minhas opiniões são opiniões repletas de cientificidade e que devem ser elementos significativos na actualização e melhoramento deste tema abordado. Apenas quero partilhar estas opiniões, de forma a proporcionar que outras pessoas sejam críticas, e que através de diversos pontos de vista e estudos diferentes, se consiga, nesta e noutras áreas mais importantes, não cair num torpor cognitivo acumulado de geração para geração.

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