Viver vs Existir

Hoje mais do que nunca há uma enorme tendência para pensarmos no conforto humano, e na qualidade da vida que levamos.
Se analisarmos bem a questão, isto deriva apenas do facto de termos levado o propósito das nossas vidas a um tal extremo ridículo de servidão ao trabalho, que aumentou incrementalmente a quantidade de sintomas de doenças de carácter nervoso, como é o caso do famoso "Stress". Por agora termos tanta gente com diversos problemas deste cariz, então sim, preocupa-nos que se deva ter direito à qualidade de vida. Tende-se a pensar na qualidade de vida como algo que nos deve ser facilitado pelos outros. Os outros devem-nos ceder ferramentas para podermos viver bem, bem como devemos ter todos os direitos que são nossos por defeito. Subsídios de férias, seguro de trabalho, 13º mês. Consideramos tudo isto "facilidades" ou ainda gentilezas que nos são cedidas e que tendemos a confundir com qualidade de vida.
O modelo de sociedade que vingou no nosso Mundo faz-nos encarar pessoas com dinheiro como pessoas com melhor qualidade de vida. Mas será assim? Esta questão tem vindo desde há já algum tempo a incomodar-me, pelo que aproveito a partilhar o que me tenho proposto fazer (quase que como os 15 mandamentos, na minha opinião, de "Viver vs Existir") para tirar o máximo partido possível desta vida que, até prova em contrário, só gozamos uma vez:
I - Amar. Pouco é necessário explicar aqui. Amar a família e os amigos. Aproveitá-los enquanto os temos presentes. Quem tiver parceiro/a, poderá querer experimentar deixar de lado o espírito consumista com que actualmente se encaram a maioria das relações humanas em prol de uma atitude mais romântica. E por romantismo quero dizer: inovação; surpresa, criatividade, diversão... Tudo o que não passe pela mera rotina de comprar uma lembrança apenas porque é aquela data especial. Em vez disto pode-se, por exemplo, fazer um pique-nique, que é tão raro hoje em dia, e no entanto tão mais divertido.
II - Saborear. Quantos de nós não comemos alarvemente (perdoem-me a expressão tão directa e alusiva a um acto tão imundo)? Comer apenas pelo acto de comer, porque sabemos que temos de nos alimentar... O que proponho aqui é começarmos a, quando tivermos de comer, tirarmos também proveito deste momento, saboreando bem a comida, concentrando a nossa atenção nas diferentes texturas e explosão de gostos que até uma simples batata pode ter.
III - Rumo à Natureza. Ficar-se fechado entre quatro paredes é um desperdício da nossa efemeridade! Aconselho vivamente a experiência de sair num dia de chuva, apenas pela diversão de andar à chuva. Uma corrida pelo parque, uma visita às montanhas, um passeio descalço pela relva, no verão. Todas estas experiências de contacto com a Natureza têm fortes implicações motivacionais, bem como efeitos quase milagrosos no nosso estado de espírito (mesmo que não demos conta...)!
IV - Ritual Matinal. Não, não quero de qualquer forma fazer alusão a qualquer tipo de ceita quando falo em rituais. O hábito de acordar cedo e ter uma forma sistémica e original de "cumprimentar o dia" e de dizermos a nós mesmos (numa tentativa de interiorizar a mensagem) que não vamos desperdiçar o dia que está a começar, bem como uma variada consciencialização de compaixão com o próximo, e aproveitamento de cada momento, ao mesmo tempo que fazemos uns breves alongamentos, por exemplo, poderá trazer-nos mudanças significativas no humor e energia de que dispomos. Já agora, porque não dar-nos ao trabalho de apreciarmos o pôr do Sol um dia ou outro, para darmos conta da dimensão do Universo em que nos inserimos?...
V - Arriscar. Já diz o antigo ditado português, e com razão: "quem não arrisca, não petisca!". Temos tendência e ter comportamentos de extrema cautela. Uma vez por outra, arrisquemos. O que temos a perder? Cada dia que vivemos é um dia a menos que temos para tomar aquela decisão arriscada. E eventualmente deixa de ser possível tomá-la de todo. Quanto antes, melhor!
VI - Paixão e Excitação. Muito resumidamente diria que devemos seguir a nossa excitação e procurar a nossa paixão! Um bom motivo em função do qual vivermos é a busca do que nos dá prazer fazer, aquilo que verdadeiramente gostamos. Devemos perseguir os nossos sonhos. Por muito pouco prováveis que possam parecer, apenas temos uma oportunidade para os tentarmos alcançar.
VII - Viajar. Não há nada como viajar. Conhecer novas culturas, abrir novos horizontes, testemunhar pontos de vista completamente diferentes, receber conselhos de gente do outro lado dos Oceanos! Custe o que custar, viajar é uma experiência obrigatória para quem quer deixar de existir e começar a viver.
VIII - Exercício. Aqui não há muito a explicar. Passa pela velha mensagem de "desalapar o cóccix" (perdoem-me a expressão barbárica). Não é preciso explicar a importância de um corpo saudável. Já para não falar na motivação de uma boa aparência quando nos olhamos ao espelho.
IX - Evitar "What if". Ninguém gosta de ter motivos para pensar coisas como "e se eu tivesse arriscado?" "e se eu tivesse ido com os meus amigos andar de bicicleta em vez de ficar fechado no computador a tarde toda?" "e se eu tivesse falado com aquela miúda?". Ninguém gosta de pensar nas possibilidades inerentes à acção que no passado decidiram não tomar. Para tal, decidamos! Não adiemos. Façamos!
X - Abrandar. A tendência actual, como já mencionei, aliás, no início desta publicação, é, cada vez mais, viver de forma acelerada. Já dizia John Derek "Live fast, die young, leave a good looking corpse!". Esta é a filosofia pela qual muitos se regem hoje em dia. Tiremos tempo para apreciar o que temos, o que/quem nos rodeia, ...
XI - Voluntariar. Não há nada como aprender a arte da Compaixão. Ajudar os outros quando não dispõem de mais ninguém traz-nos muitas mais recompensas do que se costuma imaginar. A satisfação de um sorriso que provocamos em alguém é uma moeda poderosíssima!
XII - Falar com "estranhos". As crianças, mais que ninguém, sabem como viver! Brinquemos com elas... Aprendamos a ser alegres como elas.
Não há ninguém mais sábio que os idosos. Falemos com eles, tentemos saber o que têm para partilhar das experiências que viveram. Gozemos da sua sabedoria enquanto perduram.
XIII - Aprender. Sermos virados para constantemente melhorarmos e adquirirmos novas capacidades é do mais satisfatório que podemos provar na vida. Faz-nos sentir úteis e capazes. Dá-nos motivação para futuros projectos. Seja aprender uma nova língua, uma nova receita, um novo instrumento, ou até um novo desporto radical...
XIV - Rir até chorar. O ponto de convergência entre o riso e o choro é tido em conta como o ponto óptimo do riso. Tentemos chegar a este ponto o mais possível. Rebolar no chão a rir também não é nada mau de todo. Rir é das melhores formas de viver. Atitude positiva...
XV - Zen. O estilo de vida Zen é algo que sempre me fascinou. Em poucas palavras, os conselhos Budistas são: viver o presente; em vez de pensar no que temos para fazer daqui a n tempo, foquemo-nos no presente; não vale a pena perdermos energias com remorsos alusivos ao passado. O foco deve estar no presente. Que cheiros nos rodeiam? O que conseguimos ouvir em nosso redor? Observemos as vistas todas dos locais onde nos encontramos a cada momento, ...
Estes quinze passos que sugiro aqui são apenas alguns que me lembrei e que considero pertinentes. O que quero com este texto é fazer as pessoas pensarem bem no que fazem, e as razões que as levam a tomarem as suas decisões. Analisar estes pontos, creio, faz-nos pensar bastante acerca de termos bem definido o nosso propósito de vida.
Infelizmente, muita gente hoje em dia considera-se confortável na posição de ver a sua vida a passar. Pouca gente toma verdadeiramente as rédeas das suas vidas. Vai-se andando e vai-se vendo... A grande diferença entre pessoas de sucesso e pessoas "medíocres" é que as segundas "deixam acontecer", enquanto que as primeiras "fazem acontecer"! Existir não é de todo um bom processo para aproveitar o nosso tempo na Terra. Assumamos as rédeas da nossa vida.
Creio que se aprendermos a apreciar tanto a vida como estes pequenos processos sugerem, aí sim, iremos viver de facto, em vez de apenas existirmos. Ainda não é tarde para ninguém. Amanhã, sim, será tarde. Hoje ainda não. Juntem-se ao grupo dos que, após a obrigação de existirem, escolheram viver!
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