PTS - Reflexão 3 & Final

Tendo sido hoje o prazo limite para entrega da terceira e última versão do Plano de Trabalhos de Semestre, considerei esta a altura mais pertinente para publicar uma reflexão final acerca do desenvolvimento deste mesmo trabalho.

As conclusões que posso tirar da realização da tarefa proposta em questão não fogem muito àquilo que tinha sido inicialmente previsto nas minhas reflexões iniciais, o que denota uma eficiente transmissão do que viria a ser a tarefa, por parte da equipa docente.

Nalgumas fases da sua construção, o PTS revelou-se um desafio face ao qual tive de me tornar um adversário à altura. Nas primeiras semanas não foi complicado gerir de forma eficaz todas as actividades, uma vez que a carga de testes e demais elementos de avaliação não era muito elevada. No entanto, à medida que os trabalhos foram aumentado, a par com um aumento significativo nas actividades extra-curriculares como palestras na Universidade, treinos pela equipa de Basquetebol da FEG.Católica, entre outras, foi necessário repensar a estratégia que estava a utilizar na organização do meu PTS.

Pode-se dizer que o Semestre me correu relativamente bem. E se assim o foi, devo praticamente todas as partes positivas do mesmo ao PTS. Mesmo antes de nos ser proposto desenvolver o PTS, eu já tinha uma das portas do meu armário coberta de papéis na sua quase totalidade. Estes papéis continham nada mais nada menos que as principais datas de que já tinha informação, relativamente a testes, entregas de trabalhos, sessões e apresentações diversas. Agora que me recordo deste meu plano inicial, devo dizer que apesar de o continuar a considerar bastante interessante, não teria sido nada prático, de todo, continuar a usá-lo. É uma ferramenta pouco flexível, se é que se pode considerar esta acção elementar como uma ferramenta sequer. Já o PTS revelou-se bastante flexível e fácil de manusear. Quer dizer, sim, é verdade que tive de despender de algum tempo por forma a conseguir criar o seu formato inicial. Bem como algum tempo também teve de lhe ser dedicado na actualização e acompanhamento regular. Mas ainda assim, tudo não passou de um (bom) investimento em prol de uma recompensa tão maior.

Ao longo da minha utilização do PTS, tive de fazer diversos ajustes, e fui tomando nota dos ajustes numa secção que dediquei à análise mensal de actividades no PTS. Desta forma, podia facilmente registar as mudanças que fiz para, por qualquer motivo que pudesse necessitar de tal coisa, eventualmente ver a analisar que tipos de mudanças ocorreram mais frequentemente e como podia organizar as minhas actividades de uma forma mais previsível. A fase intermédia do PTS foi a pior. Estive uns tempos menos cuidadoso e deixei de me preocupar tanto em o manter devidamente cuidado e renovado. Acontece que, por estranho que possa parecer a uns, e ainda previsível a outros, verifiquei de facto um decréscimo no meu desempenho geral. Comecei a não levar tão a sério horas de estudo, porque afinal, não estavam escritas em lado nenhum, e dei por mim a ter um rendimento bastante abaixo do que quereria. Felizmente dei rapidamente conta do sucedido e retomei de imediato o uso sistémico do PTS. Acabei por voltar aos conformes, cumprindo as datas impostas e não tendo percalços graves.

Generalizando, então, a experiência que tirei da construção do PTS foi bastante positiva. A noção da importância do tempo e de quão pouco do mesmo dispomos ganhou uma proporção bastante maior a na minha capacidade de organização. Para o final do semestre já tentava aproveitar todos os tempos livres que tinha de uma maneira que no início não me lembraria sequer. Eu apenas fazia tenção de criar uma espécie de agenda visual para ter ideia de quando teria prazos limites. Mas todo o processo quer de estudo para um teste, quer de elaboração de um trabalho, são o factor mais importante para o bom rendimento. E uma boa organização destes processos é uma vantagem imensa, e é competência que considero ter agora desenvolvida.

Fui-me vendo "forçado" a arranjar soluções para sobreposições de tarefas, piores rendimentos em alguns trabalhos, mudanças abruptas e em cima da hora de algum evento, entre outros. Fui capaz de lidar com todas estas variáveis de uma forma relativamente calma por conseguir ver todo o plano geral do semestre, e como tudo se encaixava, podendo reorganizar o meu plano de trabalhos conforme mais me convinha. Sem um PTS acredito que a vida universitária no primeiro semestre tinha sido mais complicada e um pouco caótica. A cada imprevisto que aparecesse eu iria ficar severamente desorientado.

Concluindo, e para não me estender demasiado como tem sido prática frequente da minha parte, posso dizer que todo o tempo investido no PTS, na minha modesta opinião, teve retorno mais que significativo. De agora em diante sinto-me relativamente o mesmo, mas com um grande valor acrescentado que é o da valorização da importância da organização do tempo tanto a nível académico como a nível pessoal, e como esta organização, bem ou mal feita, pode influenciar directamente todo o nosso empenho.

Diversão nos Transportes Públicos


Uma vez que numa Lecture recente de PMI abordámos a estilística e o jargão, decidi publicar aqui uma crónica que escrevi em Setembro de 2008, cujo nome é "Caras e Posturas no Metro". Decidi transformá-lo numa aproximação ao argumento, cuja conclusão é "O metro é dos melhores sítios para desenvolvermos os nossos sentidos!". Dou-me ao luxo de colocar a crónica com a sua estilística original, que é a minha mais comum, uma vez que a publico no seguimento da abordagem à estilística e jargão:

Já estive na Disneyland, já me considero utilizador assíduo do Port Aventura da Universal Pictures, e já visitei muitos outros parques de diversões. Ainda assim, devo dizer que das coisas que mais gosto me dá é viajar nos transportes públicos. Tudo bem que não tem, nem pouco mais ou menos, a parte física da diversão, a adrenalina ou aquela alegria de tirar uma fotografia com o rato Mickey, mas é bastante estimulante e interessante. Quando falo nos tranportes públicos, abranjo todos os tipos destes, claro está, se bem que posso tender a direccionar-me mais para o metro, que uso com muito mais frequência.

Bom, tantas palavras já escritas e ainda não divulguei o porquê de achar as viagens nos transportes públicos divertidas, enquanto inúmeras outras pessoas seriam muito bem capazes de afirmar, sob juramento até, que se há parte desagradável do seu dia-a-dia, é terem de andar nos transportes públicos, onde faz calor e não há arejamento; onde podemos ir sentados ao lado de um psicopata que não desvia o seu olhar do nosso por nada deste mundo; ou ainda ir ao lado de algúem que calcou um montinho de fezes de cão (e quem diz cão, pode ser de rato, ou de gato, ou de cavalo, etc. As pessoas é que assumem sempre ser de cão) e que não percebeu o que aquilo era, foi lá mexer com a mão, e quando percebeu o que fez, deitou as mãos à cara, em acto de espanto e desespero, piorando a situação, principalmente para quem vai sentado ao lado da mesma pessoa durante uma viagem de 30 minutos até sua casa – ou, se for de manhã, acaba por ter de ir a cheirar mal para o emprego ou para a escola. E não há mesmo volta a dar. É assim que funciona. É assim que sempre funcionou.

As posturas. As posturas, as maneiras de estar e as reacções, o mais variadas existentes, ocorrem nos transportes públicos. Há de tudo, e eu gosto de estar lá para testemunhar e me divertir um pouco. Não por mal às pessoas, porque mesmo eu e toda a gente que conheço temos bastantes defeitos, mas por achar uma imensa piada à diversidade que há, sendo nós todos da mesma raça. Do mesmo material.

No metro há aqueles que dormem, porque tiveram uma noitada nessa noite, por trabalho ou estudo, ou mesmo por diversão, e então não aguentam e acabam por adormecer. Uns ainda tapam os olhos com uns óculos de sol; é uma boa jogada, até que se começam a babar e denunciam-se na mesma. Há aqueles que ouvem música clássica enquanto jogam sudoku, e os que ouvem música da pesada enquanto abanam a cabeça e preparam um batido de neurónios para o lanche a meio da manhã com toda aquela agitação. Eu pessoalmente gostava de saber onde estas pessoas vão buscar tanta genica logo de manhã cedinho.

Para além dos que ouvem música, há os simpáticos, que a dão. De graça! Sim, e ainda há quem diga “hoje em dia ninguém dá nada!” Mas a sério, dão música. Metem o volume dos seus aparelhos de música naquele nível um tracinho após o traço do máximo, de modo a partilharem as suas músicas com os que os rodeiam. É bastante simpático da parte deles, mesmo.

Depois há aqueles que têm um grande dilema pela frente. A parte dos seus cérebros que gere as relações sociais não os quer deixar dormir, mas a parte dos seus cérebros que vê a energia a rondar metade do rendimento, quer que eles durmam, e estes são fáceis de localizar. Sim, são aqueles cuja cabeça tomba para o lado e de repente volta a pôr-se direita num repentino esticão, apenas para voltar a cair três segundos depois e de seguida voltar a levantar-se. Com tanta gente assim, tenho de vos confessar que não percebo porquê que ainda nenhuma rapariga se lembrou de deixar cair a sua cabeça por cima do meu ombro no metro. Fica aqui a sugestão. Eu garanto que o meu ombro é muito confortável, e que não me mexo muito.

O nariz é uma parte muito íntima do nosso corpo. Tão íntima que muitos são os que têm de constantemente confirmar o estado físico deste, do lado de dentro... Uns usam o indicador para massajar a máquina olfactiva, outros literalmente escarafuncham, enquanto outros repuxam uma esbelta bola de fungos para mais tarde, quando a porta do metro se abrir, mandarem a famosa bisga, coisa que quero acreditar piamente que façam no chão da sala das suas casas também.

O dedo mindinho é mais reservado aos ouvidos. Há muitos que consideram que é preciso fazer sondagens à quantidade de cera nos ouvidos. Claro que a intenção é só medir os níveis, para confirmar se estará ou não na altura de ir ao médico, mas acaba sempre por vir alguma agarrada ao dito cujo, quantidade que depois acabam por limpar nas suas calças. E sim, temos sorte quando limpam nas suas calças e não aproveitam as nossas num momento menos atento da nossa parte.

Há também os que tiram imensa diversão em riscar assentos e arrancar autocolantes do metro. E há as mães. Isso sim é divertido de ver. Naturalmente que uma mãe que venha com uma criança pequena pela mão ou ao colo dá prioridade a arranjar lugar para a criança. Mas quantas vezes já não assisti a alguém levantar-se para ceder o lugar (muitas vezes até eu mesmo) e a outra agradecer, e sentar-se, virando-se depois para a criança dizendo “agarra-te bem aí ao posto, moço!”. Isto só para mostrar o poder das varizes.

Há ainda aqueles que, vá-se lá saber porquê, consideram que o metro é deles. Uns espalmam-se no chão, vão lá sentados, a ocupar o triplo do espaço que ocupariam se fossem como um Homo-Sapiens regular. Outros sentem que os bancos são demasiado a direito, e afinal, porque raio não meteram ali uns sofás? Não ocupam tanto espaço como isso. Então acabam por esticar as pernas nos assentos, como quem reserva lugar para um amigo imaginário.

Os meus favoritos pessoais são as pessoas que vão em transe. Eu sou desses. Vou de tal ordem concentrado em tanta coisa ao mesmo tempo que acabo por me isolar, e bem que o metro podia começar a voar, que eu só daria por isso quando visse nas notícias da tarde. É verdade, abstraio-me completamente, pensando numa data de coisas importantes, e sem o serem, ao mesmo tempo, e perdendo consciência do que se passa à minha volta. Claro que vou com os olhos abertos, então acabo por processar as imagens, mas se houver algo de interessante ou curioso que eu veja, só vou reparar quando sair na minha paragem e fizer uma passagem rápida mental por tudo o que tiver acabado de ver. Agora que penso nisso, até é possível que afinal de contas já alguma rapariga tenha usado o meu ombro para se aconchegar no metro, e eu não tenha dado conta. Bem visto...

Os auriculares dos telemóveis são uma coisa muito chata hoje em dia. Há uns tempos atrás fiquei muito desiludido quando ia uma rapariga muito engraçada ao meu lado, e eu ia em “transe”, e saí do mesmo no preciso momento em que ouço esta dizer “eu amo-te!”. Eu virei-me, e já ia abrir a boca para dizer “eu agradeço muito a intenção. Não digo que não fosse capaz de te amar também, mas se calhar é um bocado precipitado, devíamo-nos conhecer melhor antes, ou conhecer de todo, não concordas? Podemos marcar já um cafezinho para resolvermos o assunto.” Neste momento, ela ajeitou o cabelo e vi lá debaixo um sapo preto agarrado à sua orelha, que num instante se transformou num auricular “Bluetooth”; ainda estou para perceber como... De qualquer das formas, acabei por não dizer nada, mas é daquelas coisas que não são saudáveis, dão desgostos a pessoas. É estar a dar esperanças a alguém. É como uma punhalada nas costas. Ou talvez não, porque nem a conhecia. A vida é assim mesmo.

Por falar em telemóveis, também é engraçado reparar como uma pessoa fala ao telemóvel no meio de uma multidão. Só isso pode-nos dizer muito a respeito da personalidade de alguém. Se é introvertido, se não, e mais trinta por uma linha. Eu pessoalmente sou muito reservado, então em primeiro lugar nunca faço chamadas dentro de um metro rodeado de gente. Se for preciso, saio numa paragem para fazer uma chamada que seja mesmo necessária. Mas se alguém me ligar, então falo muito baixinho e com uma voz meio entupida, acabando por dar por mim a ter de repetir inúmeras vezes o que digo porque quem está do outro lado não percebe à primeira, e muitas vezes nem à segunda nem à terceira percebe. Mas há aqueles que são muito confiantes de si mesmos, e gostam de se dar a conhecer aos demais estranhos. Há mesmo quem berre ao telemóvel. Por vezes dá-me vontade de perguntar às pessoas se estão a falar com um surdo, porque se estiverem, também de nada lhes serve berrar daquela forma. Depois há aqueles que andam no metro à procura de um amigo ou amiga colorida. Sempre à procura de alguém a quem piscar o olho, ou à procura de uma boa oportunidade para se fingirem de malucos e começarem a dizer o seu número de telemóvel em voz alta vezes sem conta.

Temos ainda os que fazem os trabalhos de casa à pressa durante a viagem. Vão ali todos atrapalhados, com livros pendurados, canetas nas orelhas, borracha na boca, até os pés servem para ir buscar coisas às mochilas. Tem de ser, senão apanham com mais trabalho ainda. Só não se lembraram disso foi no dia anterior.

O meu conselho mesmo para quem tem um cão, é começarem já a treiná-lo para se passar por morto. Sim, porque supostamente só podem entrar em transportes públicos cães-guia, como usam os cegos, mas há muita gente que já vi mesmo no metro com um cãozinho pequeno ou ao colo, ou metido entre as pernas, escondido debaixo do assento. Mas estes nunca se mexem, e nunca ninguém lhes diz nada. Deve ser por isso mesmo, por não se mexerem. As pessoas têm pena, coitadito do cão; até ao colo entrou, deve estar mesmo mal. A sério, comecem a treinar o vosso cão, ou o gato ou mesmo o tigre que têm lá em casa. Tudo vale.

Depois há as trocas de olhares. Há imensos tipos diferentes de trocas de olhares. Trocas de olhares amorosos, outros nem tanto, outros o oposto mesmo. Há de tudo. Gente que vai de fato (fato de vestir, não facto sem “c”) a olhar de lado para gente menos bem arranjada, a achar-se superior (alguns só, atenção). E o mesmo ao contrário, gente menos arranjada a olhar para gente de fato e a achá-los hipócritas. Alguém que tira do bolso um bom telemóvel ou um PDA, é logo alvo de olhares indiscretos, pensando quanto aquilo terá custado, ou se será mesmo dele, se foi a sua mãe que lho emprestou, se estará a pagar aquilo às prestações, se o terá roubado, ou mesmo se o terá ganho numa caixa de cereais, daquelas em que se manda um código por 60 cêntimos para um número qualquer e nunca se ganha nada. Ou então, quando se ganha, dizem-nos que o stock já acabou e então em vez daquela fantástica scooter nos mandam um chapéu só para nos lembrarmos de continuar a tentar na próxima promoção (sim, já me aconteceu…).

Há os que vão a olhar para um lado e para o outro, a suar, e a desconfiar de toda a gente, porque não pagaram o bilhete. Há os que já vêm suados de terem vindo a correr para não terem de esperar mais cinco minutos pelo próximo metro, e há o oposto. Eu gosto de pôr um bocadinho de perfume de manhã. Só um bocadinho, para dar a nuance necessária. Mas se ando de metro, este não dura. Quantas vezes o meu perfume não foi já completamente liquidado, neutralizado, trespassado por perfumes femininos. Aquilo é que é força. Uma senhora qualquer que se tenha perfumado senta-se ao meu lado, e eu já sei que não vou sair dali com o meu cheiro, mas sim com o cheiro dela. Há mulheres que só podem usar um frasco de perfume por dia. Só pode. Ou isso ou os fabricantes de perfumes masculinos esmeram-se menos que os de mulheres. Sinceramente acho que se devia levar este caso mais a sério, não devia ser assim.

Assim concluo que o metro é dos melhores sítios para desenvolvermos os nossos sentidos. A audição, o tacto, o olfacto, a visão, e... Não, não vejo aplicação para o paladar. A não ser no caso daqueles que tiram pastilhas elásticas secas debaixo dos assentos e fazem questão de as ingerir. Mas gosto de imaginar isto como um mito que nunca se vai provar verdadeiro diante dos meus olhos. Há muitas outras observações interessantes nos transportes públicos, mas de momento exponho aquilo que me recordo, ou mesmo o que me convém (como eu disse, sou muito reservado), não querendo deixar de dizer que fiquem sempre atentos, porque é giro. É mesmo. E não vos conto tudo, porque senão não tem tanta piada como relatarem vocês mesmos.

E claro, todos sabemos que há os que lêem. Há os que fingem ler. E há ainda os que fingem ler uma coisa mas lêem outra por baixo. Já assisti a uma pessoa com a capa de um livro posta noutro, e eu percebi isto pelo conteúdo, porque tinha lido o livro da capa e o livro que estava dentro não era o mesmo. Qual é o interesse disto? Depois temos ainda os que levam um livro nas mãos mas nunca chegam a virar a página; vão olhando à volta, lançam olhares aqui e ali, e para os menos atentos, passam por grandes intelectuais.

Acredito piamente que o próximo avanço será termos gente aí de um lado para o outro com livros de pernas para o ar, convencidos de que estão a fazer um figuraço.

Masculinidade na Dança

Na imagem podemos ver o grande Gene Kelly, dos melhores bailarinos que alguma vez viveram. Era de louvar essencialmente a sua versatilidade entre a dança e o canto.

Propus-me tratar aqui, já que é um espaço de criação de argumentos, uma questão que me tem seguido desde o dia em que comecei com as danças de salão, há já mais de quatro anos portanto.
Esta questão resume-se à seguinte interrogação "será a dança algo tão alusivo a "maricas" como muitos fazem parecer?"

Desde o dia que cheguei à escola a anunciar que havia começado a dançar, e que até estava a evoluir bastante depressa, que alguns indivíduos também do sexo masculino logo decidiram começar a ridicularizar este facto. Vim mais tarde a perceber que isto é genérico. Em todo o lado que se comente que eu sou um "artista" (quase...) das danças de salão clássicas e latino-americanas, há sempre pelo menos uma pessoa, sempre do sexo masculino, que afirma veementemente que a dança é para maricas. O engraçado no meio disto tudo é as pessoas serem tão tapadas que não se dão ao trabalho de pensar no que é a dança mesmo, afinal de contas! Comparemos então a dança ao desporto que de forma generalizada se considera o desporto mais másculo à face da terra: o râguebi masculino:

Ora vejamos, esse desporto é jogado por homens, e homens apenas. Em muitas ocasiões temos a infelicidade de ver lances em que homens se enrolam conjuntamente, sem se largarem por nada deste mundo, pelo chão fora, como num filme romântico onde um casal enamorado cai em câmara lenta, rodopiando em conjunto pela praia, até à beira mar, onde finalmente dão um beijo apaixonado. De seguida temos a simbolização de bom trabalho. Quando alguém faz um bom trabalho, é comum ver-se alguém passar e dar a típica palmada no rabiosque... Quer-se dizer... Creio que esta parte do argumento dispensa demais comentários ou pormenores. Todos percebemos a masculinidade (alusão irónica ao conceito de masculinidade, claro!) deste acto.
Não esqueçamos ainda as ocasiões em que vemos um elemento de uma equipa apertar os órgãos genitais de um outro de outra equipa, numa tentativa (desculpas, desculpas...) de lhe causar agonia, atrasando assim o seu possível processo de recuperação de bola, ou qualquer outro processo que estivesse a visar completar. Também me vou dar ao luxo de vos deixar reflectirem por vocês próprios sobre esta... Ah, por último, e porque não quero maçar ninguém com demasiadas demonstrações do que é tipicamente másculo (bem, hoje estou em grande com o uso da ironia!), temos os balneários... O espírito de irmandade no seu mais Cru (e nú) estado. Que beleza de convívio.

Comparemos agora o másculo e recheado de testosterona (demasiada até) râguebi com a supostamente "amaricada" dança. Na dança, ao invés de os homens se agarrarem desalmadamente a outros homens, correndo loucamente pela relva numa tentativa exasperada de poderem agarrar o mesmo, agarram-se a mulheres! Um homem, e uma mulher. É assim que funciona. De seguida, temos toda a arte da dança. Durante o processo de elaboração de uma coreografia o homem e a mulher trabalham em conjunto durante horas a fio, estabelecendo inúmero contacto físico e tentando salientar aquela química que todos gostam de ver numa boa exibição de dança. Ninguém aprecia um par "amorfo" a realizar um "pézinho de dança". Ainda no meio da dança, poucos rapazes há, uma vez que estão todos preocupados em se tornarem grandes Homens no râguebi. Assim, um rapaz, na dança, tem um leque variadíssimo de possíveis pares de dança, e nas aulas "sociais" (componente que complementa e acompanha os treinos para a competição) dançam com várias destas. Há ainda a componente técnica e a exigência física requerida para a dança, de que o râguebi não necessita. Na dança, a coordenação motora, o equilíbrio e a resistência muscular fina são completamente imprescindíveis. A dança é uma aliança entre o desporto e a arte. Como tal, sendo tão "delicada", é necessário um controlo surpreendente sobre todos os músculos do corpo, bem como uma força de carácter descomunal que só se consegue compreender experimentando. Em competições de dança não se vê nenhum "obeso", sem ofensa alguma por estes.

Já no masculíssimo râguebi, vemos gordos, magros, tortos, direitos, rápidos, lentos, grandes, pequenos; uns com óptimo equilíbrio, outros que caem mal dão dois passos... O único verdadeiro requisito para jogar râguebi é não apreciar os neurónios que nos foram cedidos à nascença (para andar às cabeçadas é requisito quase único esta falta de apreciação) acompanhado de uma vontade insaciável de agarrar outros homens.

Agora sim, posso concluir, sob a forma de pergunta: o que é afinal mais "maricas"? Um desporto onde há a união de um homem com uma mulher, e onde ainda se dão a pormenores técnicos e verdadeiro trabalho para atingirem resultados, ou um desporto onde a única coisa que se consegue ver, para além de um "touchdown" ou outro, é um grupo de homens a tentar agarrar quase que afavelmente um outro grupo também de homens. Se alguém ainda está convencido da segunda hipótese, aconselho uma breve visita a um campeonato de dança, seguida de um jogo de râguebi.

Viver vs Existir

Hoje mais do que nunca há uma enorme tendência para pensarmos no conforto humano, e na qualidade da vida que levamos.
Se analisarmos bem a questão, isto deriva apenas do facto de termos levado o propósito das nossas vidas a um tal extremo ridículo de servidão ao trabalho, que aumentou incrementalmente a quantidade de sintomas de doenças de carácter nervoso, como é o caso do famoso "Stress". Por agora termos tanta gente com diversos problemas deste cariz, então sim, preocupa-nos que se deva ter direito à qualidade de vida. Tende-se a pensar na qualidade de vida como algo que nos deve ser facilitado pelos outros. Os outros devem-nos ceder ferramentas para podermos viver bem, bem como devemos ter todos os direitos que são nossos por defeito. Subsídios de férias, seguro de trabalho, 13º mês. Consideramos tudo isto "facilidades" ou ainda gentilezas que nos são cedidas e que tendemos a confundir com qualidade de vida.
O modelo de sociedade que vingou no nosso Mundo faz-nos encarar pessoas com dinheiro como pessoas com melhor qualidade de vida. Mas será assim? Esta questão tem vindo desde há já algum tempo a incomodar-me, pelo que aproveito a partilhar o que me tenho proposto fazer (quase que como os 15 mandamentos, na minha opinião, de "Viver vs Existir") para tirar o máximo partido possível desta vida que, até prova em contrário, só gozamos uma vez:

I - Amar. Pouco é necessário explicar aqui. Amar a família e os amigos. Aproveitá-los enquanto os temos presentes. Quem tiver parceiro/a, poderá querer experimentar deixar de lado o espírito consumista com que actualmente se encaram a maioria das relações humanas em prol de uma atitude mais romântica. E por romantismo quero dizer: inovação; surpresa, criatividade, diversão... Tudo o que não passe pela mera rotina de comprar uma lembrança apenas porque é aquela data especial. Em vez disto pode-se, por exemplo, fazer um pique-nique, que é tão raro hoje em dia, e no entanto tão mais divertido.

II - Saborear. Quantos de nós não comemos alarvemente (perdoem-me a expressão tão directa e alusiva a um acto tão imundo)? Comer apenas pelo acto de comer, porque sabemos que temos de nos alimentar... O que proponho aqui é começarmos a, quando tivermos de comer, tirarmos também proveito deste momento, saboreando bem a comida, concentrando a nossa atenção nas diferentes texturas e explosão de gostos que até uma simples batata pode ter.

III - Rumo à Natureza. Ficar-se fechado entre quatro paredes é um desperdício da nossa efemeridade! Aconselho vivamente a experiência de sair num dia de chuva, apenas pela diversão de andar à chuva. Uma corrida pelo parque, uma visita às montanhas, um passeio descalço pela relva, no verão. Todas estas experiências de contacto com a Natureza têm fortes implicações motivacionais, bem como efeitos quase milagrosos no nosso estado de espírito (mesmo que não demos conta...)!

IV - Ritual Matinal. Não, não quero de qualquer forma fazer alusão a qualquer tipo de ceita quando falo em rituais. O hábito de acordar cedo e ter uma forma sistémica e original de "cumprimentar o dia" e de dizermos a nós mesmos (numa tentativa de interiorizar a mensagem) que não vamos desperdiçar o dia que está a começar, bem como uma variada consciencialização de compaixão com o próximo, e aproveitamento de cada momento, ao mesmo tempo que fazemos uns breves alongamentos, por exemplo, poderá trazer-nos mudanças significativas no humor e energia de que dispomos. Já agora, porque não dar-nos ao trabalho de apreciarmos o pôr do Sol um dia ou outro, para darmos conta da dimensão do Universo em que nos inserimos?...

V - Arriscar. Já diz o antigo ditado português, e com razão: "quem não arrisca, não petisca!". Temos tendência e ter comportamentos de extrema cautela. Uma vez por outra, arrisquemos. O que temos a perder? Cada dia que vivemos é um dia a menos que temos para tomar aquela decisão arriscada. E eventualmente deixa de ser possível tomá-la de todo. Quanto antes, melhor!

VI - Paixão e Excitação. Muito resumidamente diria que devemos seguir a nossa excitação e procurar a nossa paixão! Um bom motivo em função do qual vivermos é a busca do que nos dá prazer fazer, aquilo que verdadeiramente gostamos. Devemos perseguir os nossos sonhos. Por muito pouco prováveis que possam parecer, apenas temos uma oportunidade para os tentarmos alcançar.

VII - Viajar. Não há nada como viajar. Conhecer novas culturas, abrir novos horizontes, testemunhar pontos de vista completamente diferentes, receber conselhos de gente do outro lado dos Oceanos! Custe o que custar, viajar é uma experiência obrigatória para quem quer deixar de existir e começar a viver.

VIII - Exercício. Aqui não há muito a explicar. Passa pela velha mensagem de "desalapar o cóccix" (perdoem-me a expressão barbárica). Não é preciso explicar a importância de um corpo saudável. Já para não falar na motivação de uma boa aparência quando nos olhamos ao espelho.

IX - Evitar "What if". Ninguém gosta de ter motivos para pensar coisas como "e se eu tivesse arriscado?" "e se eu tivesse ido com os meus amigos andar de bicicleta em vez de ficar fechado no computador a tarde toda?" "e se eu tivesse falado com aquela miúda?". Ninguém gosta de pensar nas possibilidades inerentes à acção que no passado decidiram não tomar. Para tal, decidamos! Não adiemos. Façamos!

X - Abrandar. A tendência actual, como já mencionei, aliás, no início desta publicação, é, cada vez mais, viver de forma acelerada. Já dizia John Derek "Live fast, die young, leave a good looking corpse!". Esta é a filosofia pela qual muitos se regem hoje em dia. Tiremos tempo para apreciar o que temos, o que/quem nos rodeia, ...

XI - Voluntariar. Não há nada como aprender a arte da Compaixão. Ajudar os outros quando não dispõem de mais ninguém traz-nos muitas mais recompensas do que se costuma imaginar. A satisfação de um sorriso que provocamos em alguém é uma moeda poderosíssima!

XII - Falar com "estranhos". As crianças, mais que ninguém, sabem como viver! Brinquemos com elas... Aprendamos a ser alegres como elas.
Não há ninguém mais sábio que os idosos. Falemos com eles, tentemos saber o que têm para partilhar das experiências que viveram. Gozemos da sua sabedoria enquanto perduram.

XIII - Aprender. Sermos virados para constantemente melhorarmos e adquirirmos novas capacidades é do mais satisfatório que podemos provar na vida. Faz-nos sentir úteis e capazes. Dá-nos motivação para futuros projectos. Seja aprender uma nova língua, uma nova receita, um novo instrumento, ou até um novo desporto radical...

XIV - Rir até chorar. O ponto de convergência entre o riso e o choro é tido em conta como o ponto óptimo do riso. Tentemos chegar a este ponto o mais possível. Rebolar no chão a rir também não é nada mau de todo. Rir é das melhores formas de viver. Atitude positiva...

XV - Zen. O estilo de vida Zen é algo que sempre me fascinou. Em poucas palavras, os conselhos Budistas são: viver o presente; em vez de pensar no que temos para fazer daqui a n tempo, foquemo-nos no presente; não vale a pena perdermos energias com remorsos alusivos ao passado. O foco deve estar no presente. Que cheiros nos rodeiam? O que conseguimos ouvir em nosso redor? Observemos as vistas todas dos locais onde nos encontramos a cada momento, ...

Estes quinze passos que sugiro aqui são apenas alguns que me lembrei e que considero pertinentes. O que quero com este texto é fazer as pessoas pensarem bem no que fazem, e as razões que as levam a tomarem as suas decisões. Analisar estes pontos, creio, faz-nos pensar bastante acerca de termos bem definido o nosso propósito de vida.

Infelizmente, muita gente hoje em dia considera-se confortável na posição de ver a sua vida a passar. Pouca gente toma verdadeiramente as rédeas das suas vidas. Vai-se andando e vai-se vendo... A grande diferença entre pessoas de sucesso e pessoas "medíocres" é que as segundas "deixam acontecer", enquanto que as primeiras "fazem acontecer"! Existir não é de todo um bom processo para aproveitar o nosso tempo na Terra. Assumamos as rédeas da nossa vida.
Creio que se aprendermos a apreciar tanto a vida como estes pequenos processos sugerem, aí sim, iremos viver de facto, em vez de apenas existirmos. Ainda não é tarde para ninguém. Amanhã, sim, será tarde. Hoje ainda não. Juntem-se ao grupo dos que, após a obrigação de existirem, escolheram viver!