Masculinidade na Dança

Na imagem podemos ver o grande Gene Kelly, dos melhores bailarinos que alguma vez viveram. Era de louvar essencialmente a sua versatilidade entre a dança e o canto.

Propus-me tratar aqui, já que é um espaço de criação de argumentos, uma questão que me tem seguido desde o dia em que comecei com as danças de salão, há já mais de quatro anos portanto.
Esta questão resume-se à seguinte interrogação "será a dança algo tão alusivo a "maricas" como muitos fazem parecer?"

Desde o dia que cheguei à escola a anunciar que havia começado a dançar, e que até estava a evoluir bastante depressa, que alguns indivíduos também do sexo masculino logo decidiram começar a ridicularizar este facto. Vim mais tarde a perceber que isto é genérico. Em todo o lado que se comente que eu sou um "artista" (quase...) das danças de salão clássicas e latino-americanas, há sempre pelo menos uma pessoa, sempre do sexo masculino, que afirma veementemente que a dança é para maricas. O engraçado no meio disto tudo é as pessoas serem tão tapadas que não se dão ao trabalho de pensar no que é a dança mesmo, afinal de contas! Comparemos então a dança ao desporto que de forma generalizada se considera o desporto mais másculo à face da terra: o râguebi masculino:

Ora vejamos, esse desporto é jogado por homens, e homens apenas. Em muitas ocasiões temos a infelicidade de ver lances em que homens se enrolam conjuntamente, sem se largarem por nada deste mundo, pelo chão fora, como num filme romântico onde um casal enamorado cai em câmara lenta, rodopiando em conjunto pela praia, até à beira mar, onde finalmente dão um beijo apaixonado. De seguida temos a simbolização de bom trabalho. Quando alguém faz um bom trabalho, é comum ver-se alguém passar e dar a típica palmada no rabiosque... Quer-se dizer... Creio que esta parte do argumento dispensa demais comentários ou pormenores. Todos percebemos a masculinidade (alusão irónica ao conceito de masculinidade, claro!) deste acto.
Não esqueçamos ainda as ocasiões em que vemos um elemento de uma equipa apertar os órgãos genitais de um outro de outra equipa, numa tentativa (desculpas, desculpas...) de lhe causar agonia, atrasando assim o seu possível processo de recuperação de bola, ou qualquer outro processo que estivesse a visar completar. Também me vou dar ao luxo de vos deixar reflectirem por vocês próprios sobre esta... Ah, por último, e porque não quero maçar ninguém com demasiadas demonstrações do que é tipicamente másculo (bem, hoje estou em grande com o uso da ironia!), temos os balneários... O espírito de irmandade no seu mais Cru (e nú) estado. Que beleza de convívio.

Comparemos agora o másculo e recheado de testosterona (demasiada até) râguebi com a supostamente "amaricada" dança. Na dança, ao invés de os homens se agarrarem desalmadamente a outros homens, correndo loucamente pela relva numa tentativa exasperada de poderem agarrar o mesmo, agarram-se a mulheres! Um homem, e uma mulher. É assim que funciona. De seguida, temos toda a arte da dança. Durante o processo de elaboração de uma coreografia o homem e a mulher trabalham em conjunto durante horas a fio, estabelecendo inúmero contacto físico e tentando salientar aquela química que todos gostam de ver numa boa exibição de dança. Ninguém aprecia um par "amorfo" a realizar um "pézinho de dança". Ainda no meio da dança, poucos rapazes há, uma vez que estão todos preocupados em se tornarem grandes Homens no râguebi. Assim, um rapaz, na dança, tem um leque variadíssimo de possíveis pares de dança, e nas aulas "sociais" (componente que complementa e acompanha os treinos para a competição) dançam com várias destas. Há ainda a componente técnica e a exigência física requerida para a dança, de que o râguebi não necessita. Na dança, a coordenação motora, o equilíbrio e a resistência muscular fina são completamente imprescindíveis. A dança é uma aliança entre o desporto e a arte. Como tal, sendo tão "delicada", é necessário um controlo surpreendente sobre todos os músculos do corpo, bem como uma força de carácter descomunal que só se consegue compreender experimentando. Em competições de dança não se vê nenhum "obeso", sem ofensa alguma por estes.

Já no masculíssimo râguebi, vemos gordos, magros, tortos, direitos, rápidos, lentos, grandes, pequenos; uns com óptimo equilíbrio, outros que caem mal dão dois passos... O único verdadeiro requisito para jogar râguebi é não apreciar os neurónios que nos foram cedidos à nascença (para andar às cabeçadas é requisito quase único esta falta de apreciação) acompanhado de uma vontade insaciável de agarrar outros homens.

Agora sim, posso concluir, sob a forma de pergunta: o que é afinal mais "maricas"? Um desporto onde há a união de um homem com uma mulher, e onde ainda se dão a pormenores técnicos e verdadeiro trabalho para atingirem resultados, ou um desporto onde a única coisa que se consegue ver, para além de um "touchdown" ou outro, é um grupo de homens a tentar agarrar quase que afavelmente um outro grupo também de homens. Se alguém ainda está convencido da segunda hipótese, aconselho uma breve visita a um campeonato de dança, seguida de um jogo de râguebi.

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